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Inhotim marca 20 anos com três novas obras de arte e reflexão

O maior museu a céu aberto da América Latina, em Brumadinho, amplia seu acervo com instalações que dialogam com a natureza, memória e cultura brasileira.

27/04/2026 às 10:50
Por: Redação

O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou neste sábado, dia 25 de abril, as celebrações de seus 20 anos de existência com a inauguração simultânea de três novas obras. O acervo do museu, reconhecido como o maior a céu aberto da América Latina, foi enriquecido com a adição de "Contraplano", de Lais Myrrha; "Dupla Cura", de Dalton Paula; e "Tororama", de Davi de Jesus Nascimento. O espaço é conhecido por abrigar um vasto conjunto de trabalhos de artistas nacionais e internacionais, complementado por uma exuberante flora.

 

A diretora artística do instituto, Júlia Rebouças, ressaltou que as novas aquisições estabelecem uma conexão profunda com a essência do Inhotim: a integração entre arte, natureza e educação. Segundo Rebouças, cada instalação, à sua maneira, propõe uma reflexão sobre o território do museu, a interação dos visitantes com o ambiente e questões contemporâneas de grande relevância. As obras também buscam trazer à tona momentos muitas vezes negligenciados da história recente do país.

 

"Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente"

 

Júlia Rebouças enfatizou ainda que os trabalhos recém-inaugurados estabelecem um diálogo significativo com o vasto acervo que o Inhotim construiu ao longo de duas décadas.

 

"São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim", completa a diretora artística.

 

A obra Contraplano

Posicionada em um dos pontos mais elevados do Inhotim, a escultura monumental "Contraplano", da artista Lais Myrrha, busca estabelecer um diálogo com a arquitetura moderna, fazendo referência ao projeto de Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Construída com lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, a instalação oferece uma vista panorâmica para diferentes áreas do jardim do museu, a mata circundante e, notavelmente, para os fragmentos de cavas de mineração presentes nas proximidades. O título da peça sugere um espelhamento da paisagem, que foi profundamente alterada pela atividade mineradora.

 

Lais Myrrha, artista mineira, explicou sua intenção de provocar uma reflexão sobre a complexa relação entre a arquitetura e elementos como a paisagem, o tempo, a natureza, as montanhas e a própria mineração. Ela questiona até que ponto as inovações tecnológicas modernas influenciaram essas formas de construção, e como a topografia, incluindo as cavas de mineração, se manifesta no design da obra, dependendo da interpretação individual de cada visitante.

 

"Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante"

 

A psicóloga Paola Prates, de 29 anos, residente em Belo Horizonte, que visitava o Inhotim pela quarta vez, teve seu primeiro contato com o trabalho de Lais Myrrha. Ela considerou a obra "muito interessante" por sua localização estratégica próxima à área de mineração, o que, para ela, cria um diálogo potente. Prates descreveu a experiência como algo que "causa conforto" pelo frescor e acolhimento do local, mas que, ao mesmo tempo, faz o visitante "olhar para a mineração e lembrar o que ela é capaz de fazer", evocando uma reflexão sobre os impactos ambientais.

 

A exposição Dupla Cura

A Galeria Mata, uma das primeiras estruturas do Instituto Inhotim, agora hospeda a exposição de longa duração "Dupla Cura", do artista brasiliense Dalton Paula, que reside e trabalha em Goiânia. A mostra apresenta um vasto conjunto de aproximadamente 120 trabalhos, sendo a mais abrangente exibição de suas obras no Brasil. A coleção inclui pinturas, fotografias, vídeos e instalações que exploram temas como a ancestralidade, a memória e a rica cultura afro-brasileira.

 

A curadora Beatriz Lemos esclareceu que o título da exposição, "Dupla Cura", faz alusão a um "pacto espiritual" que permeia todo o projeto. Ela detalhou que o conceito de dualidade, inspirado na devoção a São Cosme e São Damião, reflete a ideia de que o fortalecimento individual está intrinsecamente ligado ao bem-estar coletivo.

 

Dalton Paula revelou que a reflexão sobre a memória é um dos aspectos que mais o fascina em sua prática artística. Ele pontuou que a exposição permite ao público observar obras desde 1999, que marcam suas "questões iniciais", até trabalhos mais recentes que evidenciam um aprofundamento de sua pesquisa ao longo do tempo. O artista vê a mostra como uma espécie de "oráculo" que ele criou a partir do passado, indicando "possibilidades de presente e de futuro", e considera fundamental compartilhar isso com o público, especialmente com as futuras gerações.

 

"Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante"

 

Marcos Soares, engenheiro de som de 40 anos, morador de Belo Horizonte e visitante assíduo do Inhotim (em sua sexta visita), expressou grande apreço pelo trabalho de Dalton Paula. Ele elogiou os "desenhos, as pinturas, a expressão gráfica" do artista, descrevendo-a como "bem rica". Soares considerou o "processo de construção da arte" de Dalton como "bem interessante de acompanhar", afirmando que a exposição "abre uma nova forma de vida" que ele não teria a oportunidade de vivenciar de outra forma.

 

A instalação Tororama

Próxima à obra "Contraplano", encontra-se a Galeria Nascente, que agora abriga a instalação "Tororama", de Davi de Jesus Nascimento, um artista natural e residente de Pirapora, no norte de Minas Gerais. O espaço expositivo apresenta três pinturas, um vídeo que foi gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais, e carrancas produzidas pelo Mestre Expedito. A inclusão das carrancas é notável, pois o Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, estava há uma década sem criar novas peças.

 

O curador Deri Andrade explicou que o título "Tororama" é uma expressão que surge no conto "A Terceira Margem do Rio", de João Guimarães Rosa, e que aborda a profunda conexão do protagonista com um curso d'água. Andrade detalhou que a obra de Davi de Jesus Nascimento está inteiramente ligada ao Rio São Francisco, resultado de uma pesquisa pessoal do artista sobre sua família e sua relação com o rio. O projeto é descrito como "completamente imersivo", incorporando uma vídeo performance e uma "paisagem sonora".

 

Davi de Jesus Nascimento compartilhou que sua origem familiar está ligada a gerações de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros. Ele destacou que a inspiração e a "permissão" para sua arte vêm do Rio São Francisco e da memória de sua mãe, que faleceu afogada em 2013. O artista descreve o ambiente que criou como um reflexo de sua própria origem, da "comunidade à beira do rio" e da figura de seu pai pescador.

 

"A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013", disse o artista. "Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador".

 

Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, irmã de Davi, visitou a instalação e relatou que a obra a remeteu a todas as vivências familiares desde a infância. Ela mencionou que a infância de ambos foi "sempre dentro do rio" e que, como "barranqueiros", a exposição evocou fortemente a "memória de nossa mãe", que está presente na obra.

 

Sobre o Instituto Inhotim

O Instituto Inhotim está situado no município de Brumadinho, a uma distância de 60 quilômetros da capital mineira, Belo Horizonte. A instituição opera como uma organização sem fins lucrativos, e sua manutenção é garantida por meio de doações de pessoas físicas e jurídicas, tanto diretas quanto via leis de incentivo à cultura (federais e estaduais), além da receita obtida com a bilheteria e a realização de eventos.

 

A concepção do projeto Inhotim remonta à década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz. O complexo, erguido sobre o solo rico em ferro de uma antiga fazenda local, foi oficialmente aberto ao público em 2006.

 

A localização geográfica do instituto é um de seus grandes diferenciais, posicionado entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado. Ao longo de seus 140 hectares de área de visitação, o local oferece paisagens de tirar o fôlego, proporcionando uma experiência imersiva e singular que funde arte e natureza de forma harmoniosa.

 

O acervo do Inhotim é composto por aproximadamente 1.862 obras de arte, criadas por mais de 280 artistas provenientes de 43 países diferentes. Essas obras são apresentadas tanto em galerias internas quanto em instalações ao ar livre, integradas a um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, coletadas de todos os continentes do mundo.

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