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Milton Santos: 100 anos do geógrafo que desvendou desigualdades

Seu trabalho sobre circuitos urbanos e globalização ainda é referência para entender exclusão social e econômica no Brasil e no mundo.

03/05/2026 às 13:39
Por: Redação

O centenário de nascimento de Milton Santos, celebrado em 3 de maio, ressalta a relevância duradoura de suas contribuições como geógrafo negro que dedicou sua obra à análise das desigualdades. Mesmo falecido em 2001, aos 75 anos, suas formulações teóricas continuam sendo um pilar essencial para compreender as dinâmicas socioeconômicas no Brasil e em diversos lugares do mundo.

 

Um exemplo prático da atualidade de suas ideias pode ser observado na cidade de São Luís, no Maranhão. Livia Cangiano, que é pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), investigou a coexistência de grandes redes de supermercados com pequenos mercadinhos e feiras populares. Essa paisagem urbana, que atende a diferentes realidades de poder aquisitivo, demonstra a complexa trama de exclusão e desigualdade presente no cotidiano da cidade.

 

Para sua pesquisa, Livia Cangiano utilizou a teoria dos circuitos urbanos, desenvolvida por Milton Santos na década de 1970. Essa estrutura conceitual divide a economia de uma área urbana em duas esferas principais. O circuito superior é caracterizado por grandes corporações, alta tecnologia, significativo aporte de capital e organização complexa. Em contraste, o circuito inferior abrange pequenos comércios e serviços, com acesso mais limitado a recursos, mas que se destaca pela grande capacidade de adaptação às necessidades da população local.

 

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, explica a pesquisadora Livia Cangiano.


 

Ela ilustra a adaptabilidade do circuito inferior com um exemplo prático. “Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”, detalha.

 

A influência das ideias de Milton Santos transcende as fronteiras nacionais. O projeto de pesquisa do qual Livia Cangiano participa estende a aplicação dessas teorias para analisar as dinâmicas urbanas em Gana, no continente africano, e nas cidades europeias de Londres e Paris.

 

Legado e Trajetória

 

Nascido em 3 de maio de 1926, na localidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos consolidou-se como uma das figuras mais proeminentes da geografia global. Sua formação acadêmica incluiu um bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um doutorado obtido na Universidade de Strasbourg, na França.

 

Durante o período da ditadura militar no Brasil, foi forçado ao exílio, lecionando em diversas universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao país, ele intensificou e consolidou sua vasta produção intelectual. Em solo brasileiro, atuou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP).

 

Como intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural presente no ambiente acadêmico. Sua obra, contudo, revolucionou a compreensão do espaço geográfico, estabelecendo conexões profundas entre economia, política e sociedade. Ele se tornou uma referência e fonte de inspiração para outros intelectuais negros, entre eles Catia Antonia da Silva, que é geógrafa e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, relembra Catia.


 

A professora Catia Antonia da Silva esclarece que, embora a obra de Milton Santos não tivesse como foco central a negritude ou a dimensão política da relação entre classe social e raça, o geógrafo desenvolveu uma teoria social crítica das desigualdades que oferece um robusto arcabouço para a análise das questões raciais. Ela destaca que Milton Santos nunca se esquivou do tema em suas manifestações públicas, sempre que a discussão se fazia necessária.

 

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”


 

Análise das Desigualdades

 

Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos introduziu conceitos que aprofundaram significativamente a compreensão das desigualdades. Para o geógrafo, o espaço geográfico nunca foi um mero pano de fundo para a existência humana, mas sim o produto direto de decisões políticas e econômicas.

 

Essa perspectiva implica que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades, como acesso a saneamento básico, transporte público ou internet, não resulta de fatores aleatórios. Pelo contrário, é o reflexo de escolhas que favorecem intencionalmente determinados grupos sociais e regiões geográficas.

 

Ao observar uma área periférica desprovida de serviços essenciais ou uma região valorizada que concentra elevados investimentos, Milton Santos propõe que se enxergue não uma coincidência, mas a materialização concreta de relações de poder.

 

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”, detalha a geógrafa Catia Antonia da Silva.


 

Em sua obra Por uma outra globalização, Milton Santos analisa criticamente um sistema que é promovido como vetor de integração e progresso, mas que, na prática, acentua as desigualdades em escala mundial. Grandes projetos de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, embora conectem nações e mercados, também reconfiguram os territórios locais, exercem pressão sobre comunidades e contribuem para a concentração de riqueza.

 

Outro conceito fundamental do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve a maneira como a tecnologia, a ciência e a infraestrutura se tornaram elementos centrais na conformação do território. Na prática, essa ideia se manifesta em regiões altamente conectadas, dotadas de redes digitais avançadas e logística eficiente, que convivem lado a lado com áreas onde a carência de serviços básicos é evidente. Enquanto certos espaços são preparados para atender às demandas do mercado global, outros permanecem à margem desse processo.

 

Alternativas e Perspectivas

 

Apesar de seus diagnósticos críticos sobre as desigualdades, Milton Santos também apontou para a possibilidade de transformação. Ele argumentava que as mesmas redes e tecnologias que contribuem para a ampliação das disparidades sociais poderiam ser apropriadas pelas comunidades locais para gerar alternativas econômicas e sociais mais justas.

 

Segundo o autor, iniciativas comunitárias, a aplicação da tecnologia em áreas periféricas e as formas cooperativas de organização são exemplos que demonstram como o território pode se configurar também como um espaço de resistência e de reinvenção social.

 

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, afirma a geógrafa Livia Cangiano.


 

Ela complementa: “Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”.

 

Eventos Comemorativos

 

O centenário de Milton Santos será marcado por uma série de eventos comemorativos em diversas partes do Brasil. As atividades, realizadas em formato híbrido, têm como objetivo reunir pesquisadores, ativistas e o público em geral para debater o legado e a contínua atualidade de sua vasta obra.

 

Entre os destaques está o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, que acontecerá de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão virtual. Este evento é uma colaboração com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

 

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc organizará, durante todo o mês de maio, um ciclo de palestras dedicado ao geógrafo.

 

A Universidade Federal do Tocantins (UFT) também fará sua homenagem, promovendo o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, entre os dias 26 e 29 de agosto. O encontro terá caráter internacional, focando no debate sobre o pensamento e a produção intelectual de Milton Santos.

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