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Disputa acirrada no Peru: ultraconservador e esquerda brigam por vaga no 2º turno

Keiko Fujimori já está garantida na próxima fase, enquanto diferença entre segundo e terceiro colocados é inferior a 3 mil votos.

17/04/2026 às 22:52
Por: Redação

A eleição para a presidência do Peru permanece sem um desfecho claro, mesmo após cinco dias da apuração dos votos. O pleito, realizado no último domingo, dia 17, teve a participação de 35 candidatos que buscaram se tornar o nono presidente peruano em um período de apenas dez anos, refletindo a grande instabilidade política que assola o país vizinho.

 

A candidata de direita, Keiko Fujimori, obteve 17% dos votos e garantiu matematicamente sua presença no segundo turno, agendado para 7 de junho. No entanto, a identidade de seu adversário ainda é incerta, com os candidatos que ocupam a segunda e a terceira posições separados por uma margem inferior a três mil votos.

 

Roberto Sanchéz Palomino, representante da esquerda e aliado do ex-presidente destituído Pedro Castillo, contabiliza até o momento 12% dos votos válidos. Em seguida, aparece o ultraconservador Rafael Aliaga, que se declara admirador do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com 11,9% dos votos.

 

Até o início da tarde desta sexta-feira, o Peru havia concluído a apuração de 93,3% das urnas. O país, que é o quarto mais populoso da América do Sul, com aproximadamente 34 milhões de habitantes, compartilha uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, a segunda maior depois da Bolívia.

 

O professor Gustavo Menon, especialista em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), analisa que o resultado desta eleição terá impactos significativos na rivalidade comercial entre a China e os Estados Unidos na região latino-americana.

 

Roberto Sánchez se opõem vertiginosamente à plataforma encampada por Keiko Fujimori, que pretende se realinhar com os EUA. Ela já fez acenos a Donald Trump no sentido de recrudescer a política migratória e estancar a influência chinesa que se dá, sobretudo, via Porto de Chancay.

 

O histórico político de Keiko Fujimori

 

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, lidera a corrida eleitoral com 2,6 milhões de votos, de um universo de 27 milhões de eleitores. Esta é a quarta vez que Keiko disputa a presidência do país, tendo sido derrotada no segundo turno nas três eleições anteriores, em 2011, 2016 e 2021.

 

As consecutivas derrotas eleitorais de Keiko indicam uma dificuldade em superar um determinado limite de votos, atribuída à resistência popular em relação à herança política de seu pai, que foi condenado por violações de direitos humanos.

 

Salvador Schavelzon, antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializado em política latino-americana, ressalta que a figura de Keiko evoca a memória do governo de seu pai.

 

Fujimori lembra no Peru da guerra contra o Sendero Luminoso, a reedição desse discurso antiterrorista, mas que, nas províncias, é associado às elites, ao neoliberalismo.

 

Candidatura de esquerda de Roberto Sánchez

 

O candidato Roberto Sánchez acumula, até o momento, 1,890 milhão de votos. Ele é conhecido por sua aliança com o ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob a acusação de tentativa de golpe de Estado, após tentar dissolver o parlamento. Para seus defensores, Castillo foi vítima da influência do parlamento peruano por representar os interesses da população rural.

 

O antropólogo Salvador Schavelzon descreve o perfil de Sánchez como nacionalista-popular.

 

É um nacionalismo popular que reivindica a cor da pele, o chapéu, que são símbolos importantes de um setor político que vem chegando aos poucos, mas com muita resistência por parte das elites. Ele busca dar uma resposta às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido algumas reformas.

 

Entre as propostas que Roberto Sánchez defende em seu plano de governo, destacam-se a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova Assembleia Constituinte para reformular os poderes institucionais do Peru e a ampliação de direitos trabalhistas.

 

Com formação em psicologia, Sánchez atuou como ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, em 2021. Atualmente deputado pelo partido Juntos Pelo Peru, ele foi um dos principais entusiastas da construção do Porto de Chancay, um projeto que recebeu volumosos investimentos chineses com o objetivo de facilitar o escoamento da produção para a Ásia.

 

Apesar de sua conexão com o eleitorado rural, Schavelzon adverte que Sánchez é um político experiente no cenário partidário do congresso peruano.

 

Sanchéz vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes acaba sendo mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. A gente viu isso em vários lugares da América Latina.

 

O perfil ultraconservador de Rafael Aliaga

 

Roberto Sánchez disputa a segunda vaga no segundo turno com Rafael López Aliaga, um candidato autointitulado ultraconservador que, na avaliação do professor Gustavo Menon, pode ser classificado como parte da extrema-direita.

 

O professor Schavelzon, também da Universidade Católica de Brasília (UCB), complementa que, caso o segundo turno seja disputado entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, o campo da extrema-direita sairia fortalecido. Ele prevê um realinhamento com a Casa Branca, apesar da interdependência comercial existente entre Peru e China.

 

Aliaga, ex-prefeito da capital Lima, é frequentemente comparado a figuras como Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei, devido à sua retórica ultraconservadora combinada com uma defesa enfática do livre mercado.

 

Alegações de fraude eleitoral

 

O ultraconservador do partido Revolução Popular acumula 1,877 milhão de votos. No início da apuração, Aliaga figurava na segunda posição, mas foi superado por Sánchez quando os votos das zonas rurais começaram a ser computados.

 

Diante dessa reviravolta no cenário, o candidato de ultradireita fez denúncias de uma suposta fraude eleitoral, embora não tenha apresentado provas para sustentar suas acusações. A denúncia de fraude foi veementemente criticada por seu adversário.

 

Fazemos um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confianças nos canais institucionais, esperando com responsabilidade os resultados oficiais.

 

Em um comunicado preliminar, a Missão da União Europeia, responsável por fiscalizar o processo eleitoral peruano, informou que não encontrou indícios de fraude. Contudo, registrou atrasos em 13 locais de votação na cidade de Lima, afetando o direito ao voto de 55 mil pessoas.

 

Desafios para a governabilidade

 

Com a sucessão de nove presidentes em apenas dez anos, o Peru tem vivenciado um período de intensa instabilidade, marcado por diversas renúncias e destituições. O professor Gustavo Menon avalia que, independentemente do vencedor da eleição, a governabilidade do país não estará assegurada.

 

Independentemente quem seja o novo presidente eleito, a vida com o parlamento peruano não será fácil frente a essa pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões.

 

Menon enfatiza que, embora o Peru adote um regime presidencialista, é o parlamento que, em grande medida, "toca as agendas de governo", exercendo um poder considerável sobre a administração executiva.

 

Cronologia da crise política recente

 

Na eleição anterior, em 2021, o candidato Pedro Castillo, um professor rural de centro-esquerda, venceu Keiko Fujimori no segundo turno. Sua eleição foi considerada uma surpresa, uma vez que ele não figurava entre os mais cotados nas pesquisas de opinião da época.

 

Contudo, Castillo foi posteriormente afastado do cargo e preso após uma tentativa de dissolver o Parlamento. Em novembro de 2025, ele foi condenado a mais de onze anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Para parte de seus apoiadores, Castillo foi vítima de um golpe perpetrado pelo próprio parlamento peruano.

 

A vice-presidente Dina Boluarte assumiu o posto, mas sua gestão foi marcada pela repressão violenta às manifestações contrárias à destituição de Castillo, resultando na morte de 49 pessoas, conforme dados da Anistia Internacional.

 

Com baixíssimos índices de aprovação popular, Boluarte foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025. Em seu lugar, assumiu José Jerí, então presidente do Parlamento peruano, cuja gestão foi breve.

 

Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí, e o cargo foi ocupado interinamente por José María Balcázar Zelada, eleito por via indireta pelo que é considerado o poderoso Parlamento peruano, visto como o poder de fato na nação andina.

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