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Baía de Guanabara registra retorno inédito de tartarugas-cabeçudas

Ameaçada de extinção, espécie com hábitos oceânicos intriga cientistas ao ser avistada com frequência no ecossistema estuarino, abrindo novas frentes de pesquisa.

25/04/2026 às 16:53
Por: Redação

Pesquisadores e pescadores artesanais no Rio de Janeiro estão observando com grande interesse o reaparecimento de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara, um fenômeno que pode oferecer insights cruciais sobre o comportamento desta espécie em risco de extinção.

 

Desde 2024, o Projeto Aruanã, uma iniciativa dedicada à proteção de tartarugas marinhas no litoral fluminense, tem documentado com maior frequência a presença desses animais nas águas internas da baía.

 

Recentemente, em 18 de abril, uma colaboração entre pescadores e cientistas culminou na marcação de duas tartarugas-cabeçudas que haviam entrado e permanecido em currais de pesca dentro da baía. Este acontecimento é considerado um marco científico sem precedentes, abrindo caminho para novas investigações sobre a espécie.

 

A tartaruga-cabeçuda, conhecida cientificamente como Caretta caretta, geralmente habita regiões oceânicas, onde sua dieta consiste predominantemente em crustáceos, como camarões e lagostas. A recorrência de sua presença em um ambiente estuarino como a Baía de Guanabara é um objeto de estudo intensivo.

 

Larissa Araujo, bióloga atuante no Projeto Aruanã, explicou que, embora existissem relatos esporádicos de pescadores sobre aparições da espécie no passado, não havia registros sistemáticos. Ela apontou que, a partir de julho de 2025, os avistamentos se intensificaram, incluindo a entrada desses animais nos currais de pesca.

 

A principal teoria formulada pela pesquisadora sugere que as tartarugas estão encontrando um ambiente propício para alimentação.

 

“Essa espécie tem hábitos mais oceânicos do que costeiros ou estuarinos, mas podem estar encontrando no interior da Baía de Guanabara uma farta disponibilidade de alimentos”

 

Para aprofundar a compreensão desse comportamento, o Projeto Aruanã planeja um novo estágio de monitoramento, utilizando transmissores via satélite. O objetivo é mapear as rotas percorridas, o tempo de permanência e as áreas preferenciais que as tartarugas utilizam dentro da Baía de Guanabara.

 

Apesar da possível abundância de alimento, Larissa Araujo ressalta os perigos significativos que a região apresenta para a sobrevivência das tartarugas. Ela mencionou que “há diversas atividades de origem humana ocorrendo na Baía de Guanabara”, listando contato constante com águas poluídas, colisões com embarcações, ingestão de resíduos sólidos e captura acidental em artes de pesca como ameaças.

 

Suzana Guimarães, coordenadora-geral do projeto e também bióloga, enfatizou que não há evidências suficientes para estabelecer uma conexão direta entre o retorno das tartarugas e uma eventual melhoria na qualidade ambiental da baía.

 

“Não é possível afirmar se há relação direta entre uma melhora na qualidade ambiental da Baía de Guanabara e a ocorrência de tartarugas marinhas, uma vez que ainda são limitadas as ações efetivas voltadas à despoluição e ao monitoramento dessas espécies”

 

Contudo, Suzana considera que os registros atuais demonstram a notável capacidade de recuperação do ecossistema local.

 

“Esses registros são importantes para mostrar que a Baía de Guanabara, apesar da grande poluição ainda presente, é resiliente e permanece abrigando uma enorme biodiversidade”

 

O monitoramento em andamento conta com a participação ativa de pescadores e moradores, que reportam os avistamentos ao projeto por meio de redes sociais e outros canais de comunicação. Quando as tartarugas ficam retidas em currais de pesca, equipes especializadas são acionadas para realizar a marcação, coletar dados biométricos e avaliar a saúde dos animais antes de sua soltura.

 

Suzana ainda destacou a importância dessa colaboração, afirmando que “o conhecimento da ocorrência frequente dessa espécie na Baía de Guanabara, para nós pesquisadores, é algo recente e que, graças à parceria com os pescadores artesanais, agora estamos tendo acesso a essa informação preciosa”.

 

O caso da tartaruga Jorge

 

Em 2025, um evento envolvendo uma tartaruga-cabeçuda macho, batizada de Jorge, trouxe grande visibilidade ao tema. Após passar cerca de quarenta anos em cativeiro na Argentina e ser reabilitada, Jorge foi libertada no mar.

 

Para a surpresa dos pesquisadores que a monitoravam via satélite, poucos meses após sua soltura, o animal adentrou a Baía de Guanabara.

 

“Até hoje os pescadores comentam que seguem tentando encontrar o Jorge. Tudo isso desperta um senso de conservação nas pessoas, além de estimular o interesse para as questões ambientais”

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