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Estudo aponta aumento do risco de Guillain-Barré após infecção por dengue

Pesquisa indica que infectados por dengue têm risco até 30 vezes maior de desenvolver SGB nas duas semanas seguintes à doença

17/04/2026 às 00:33
Por: Redação

Pesquisa realizada por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em colaboração com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres identificou que pessoas diagnosticadas com o vírus da dengue apresentam risco 17 vezes mais elevado de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas seguintes à infecção. Nos primeiros 14 dias após o surgimento dos sintomas da dengue, esse risco chega a ser 30 vezes maior.

 

Os resultados da investigação foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine. Segundo o levantamento, para cada 1 milhão de casos de dengue, 36 indivíduos podem evoluir para SGB. Apesar do número ser considerado pequeno em termos proporcionais, os pesquisadores alertam que, diante da frequência das epidemias de dengue no Brasil, esse dado ganha relevância.

 

A Síndrome de Guillain-Barré é definida como uma complicação neurológica rara, porém potencialmente grave, capaz de causar paralisia muscular.

 

O estudo analisou três extensas bases de dados do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internação hospitalar, notificações de dengue e dados sobre óbitos. No período de 2023 a 2024, foram identificadas mais de 5 mil hospitalizações decorrentes de SGB, das quais 89 ocorreram logo após a manifestação dos sintomas de dengue.

 

Os autores do trabalho destacam a necessidade urgente de que gestores de saúde pública passem a considerar a SGB como possível complicação pós-dengue nos protocolos oficiais de vigilância.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Segundo informações da Fiocruz, médicos, enfermeiros e neurologistas devem estar atentos a pacientes com diagnóstico recente de dengue (até seis semanas) que passem a apresentar sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento, levantando a suspeita de SGB.

 

Os pesquisadores ressaltam que o diagnóstico precoce da síndrome é determinante para o sucesso terapêutico. O tratamento, que pode incluir administração de imunoglobulina ou realização de plasmaférese, mostra maior efetividade quando iniciado rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Atualmente, não existem antivirais específicos aprovados para o tratamento da dengue, sendo a abordagem clínica baseada em hidratação e suporte médico. Diante disso, os pesquisadores enfatizam que as medidas preventivas, especialmente aquelas voltadas para o combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação contra a doença, continuam sendo as formas mais eficazes de evitar complicações graves como a SGB.

 

A vacinação tem potencial para diminuir significativamente o número de casos de dengue e, consequentemente, reduzir a incidência absoluta de síndromes graves associadas.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Impacto da dengue e histórico de complicações neurológicas

 

Em 2024, o Brasil ultrapassou a marca de 6 milhões de casos prováveis de dengue, o que, segundo avaliação da Fiocruz, evidencia a frequência das epidemias da doença no território nacional. Isso faz com que, mesmo sendo rara, a ocorrência de SGB associada à dengue corresponda a um número absoluto relevante de pacientes, exigindo preparo e resposta adequada do sistema de saúde.

 

A relação entre doenças transmitidas por mosquitos (arboviroses) e complicações neurológicas já foi comprovada anteriormente, particularmente durante a epidemia de Zika ocorrida entre 2015 e 2016. Naquela ocasião, o vírus Zika foi associado tanto ao aumento expressivo dos casos de SGB em adultos quanto à ocorrência de microcefalia em recém-nascidos. A dengue pertence à mesma família viral do Zika.

 

Como a SGB se manifesta e principais características

 

A Síndrome de Guillain-Barré é classificada como uma condição neurológica rara, caracterizada pelo ataque do próprio sistema imunológico aos nervos periféricos, que são as estruturas responsáveis por conectar o cérebro e a medula espinhal ao restante do organismo.

 

Os sintomas típicos incluem fraqueza muscular, geralmente iniciada nas pernas e que pode se estender para os braços, rosto e, em quadros graves, comprometer a respiração. Em situações extremas, o paciente pode evoluir para paralisia total e necessitar de ventilação mecânica.

 

A maior parte das pessoas atinge recuperação, porém esse processo pode levar de meses a anos, havendo a possibilidade de sequelas motoras permanentes em alguns casos.

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