A cidade de Dacar, capital do Senegal e localizada a menos de 2,9 mil quilômetros do Brasil, concentrou as atenções internacionais ao sediar o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África. O evento, realizado ao longo de dois dias e encerrado nesta terça-feira, contou com a presença de chefes de Estado e representantes diplomáticos de 38 países, incluindo 18 nações africanas, além de delegados de dez organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas e a União Europeia. O Brasil esteve representado pela embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
Durante a cerimônia de abertura do fórum, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, destacou o papel de Dacar como centro estratégico do diálogo africano e internacional, enfatizando a necessidade de buscar soluções internas para os desafios de segurança enfrentados pelo continente.
"Um espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente", discursou o presidente senegalês.
O fórum não apenas discutiu obstáculos e propôs soluções, mas também reforçou a posição do Senegal como um dos países mais estáveis da África, projetando sua influência regional e global em parceria com outras regiões em desenvolvimento, com destaque para o Sul Global, bloco do qual o Brasil também faz parte, segundo especialistas em relações internacionais entrevistados.
Leonardo Santos Simão, diplomata moçambicano e chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, ressaltou que o Senegal mantém uma trajetória de paz e estabilidade, sem jamais ter registrado um golpe de Estado. Ele pontuou que, enquanto o continente enfrenta períodos turbulentos devido a conflitos internos, regionais, terrorismo e crime organizado, a região do Sahel — faixa que conecta o deserto do Saara às savanas do sul — se tornou epicentro do terrorismo internacional, sendo alvo de ameaças de grupos jihadistas como Al-Qaeda e Estado Islâmico.
O Índice de Terrorismo Global 2026 indicou que a região respondeu por mais da metade das mortes decorrentes de terrorismo em 2025, com a maioria dos casos concentrados em Mali, Burkina Faso e Níger. Outros países da região incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.
"Senegal, através deste diálogo regular, oferece justamente esse espaço de troca de ideias, de troca de opiniões sobre como enfrentar, na prática, esses desafios do nosso tempo", afirmou Leonardo Santos Simão, ressaltando a presença de representantes de fora do continente africano no fórum.
Simão também destacou que o Senegal integra o bloco internacional conhecido como Sul Global, defendido pelo Brasil e formado por países em desenvolvimento com desafios sociais semelhantes. De acordo com o diplomata, o grupo atua tanto como fórum de debate interno quanto na interlocução com nações do Norte Global, consideradas ricas.
"Este Sul está cada vez mais unido", afirmou Simão. "Senegal é parte desse esforço também. Está no mesmo diapasão que o Brasil e outros países do Sul no trazer desta voz do Sul Global para que sejam encontradas soluções para os problemas da pobreza e da exclusão".
O diplomata completou que a soberania africana tornou-se um objetivo crescente, defendendo que os países do Norte precisam rever relações históricas que já não são aceitas, sobretudo diante da presença de delegações europeias de países com passado colonialista, como Alemanha, Espanha, Portugal e França — esta última, responsável pela colonização do Senegal até 1960.
Carlos Lucas Mamboza, professor moçambicano especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, classificou a realização do fórum como uma estratégia clara de soft power, conceito que se refere à capacidade de exercer influência internacional por meio da atração e persuasão, em oposição ao uso da força militar. Segundo ele, o Senegal busca projetar uma imagem de Estado estável, com instituições sólidas e capacidade de mediar conflitos não apenas na região do Sahel, mas em toda a África.
O tema do fórum deste ano, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, evidencia, segundo Mamboza, o dilema dos Estados africanos ao tentar equilibrar estabilidade interna, integração regional e manutenção da soberania diante da intensa competição internacional, principalmente entre China, Rússia e Estados Unidos.
“É a necessidade de equilibrar uma estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania em um cenário internacional marcado por uma intensa competição entre as grandes potências, nomeadamente China, a Rússia e os Estados Unidos”, disse o professor.
Mamboza ainda destacou que a pauta do encontro foi ampla, abrangendo temas como mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e desenvolvimento tecnológico. Para ele, isso demonstra o esforço do continente africano para definir, de forma autônoma, suas prioridades estratégicas.
O professor também enfatizou a fase diplomática do Senegal com a América do Sul, especialmente com o Brasil. O país integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), formada por mais de 20 países — em sua maioria africanos — com o objetivo de manter a região sul do Atlântico livre de conflitos armados e disputas geopolíticas. Recentemente, o Brasil assumiu a liderança da aliança em evento realizado no Rio de Janeiro.
"Senegal emerge como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente com os interesses do Brasil".
Mamboza considerou a relação entre Senegal e Brasil um exemplo de cooperação Sul-Sul. Ele mencionou que ambos defendem reformas na governança internacional, citando especificamente o pleito antigo de Brasil e nações africanas para modificar a composição do Conselho de Segurança da ONU. Atualmente, apenas cinco países detêm assento permanente e poder de veto no órgão (Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França), sem representantes da América do Sul ou da África. Cabe ao conselho, entre outras funções, impor sanções internacionais e autorizar intervenções militares.
A atuação de destaque do Senegal foi reconhecida pela delegação dos Estados Unidos, conforme relatou Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado americano. Para ele, a liderança senegalesa em questões de segurança regional ilustra o potencial transformador dos países africanos ao seguir caminhos autônomos de desenvolvimento.
“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso”, declarou Michaels.
O diplomata norte-americano completou que os Estados Unidos apoiam o protagonismo de atores africanos na condução de soluções para os desafios econômicos, políticos e de segurança do continente, reforçando que a relação com os parceiros africanos está sendo redefinida com foco em comércio mutuamente benéfico, em vez de dependência de assistência externa.
Michaels também informou que os Estados Unidos possuem interesse em integrar a cadeia de exploração de minerais críticos na África, essenciais para tecnologia, defesa e transição energética, classificando o continente como epicentro da corrida global por esses recursos. Ele afirmou que o país trabalha em conjunto com parceiros africanos para estruturar cadeias de suprimentos seguras, transparentes e comercialmente viáveis, de modo a garantir que as nações africanas obtenham maior valor de seus próprios recursos.
O repórter participou do evento a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.