No mês de agosto de 1969, Dorothy, mãe de Janis Joplin, relatou por carta a uma pessoa não identificada a estranheza diante dos títulos de “rainha” e “deusa” atribuídos à filha. A mãe mencionou ainda, ao final da correspondência, que Janis já não escrevia cartas para ela, preferindo eventuais ligações telefônicas.
Enquanto isso, Janis Joplin se mantinha envolvida em compromissos profissionais intensos. Naquele mesmo mês, ela participou de um dos mais renomados festivais de música do mundo, Woodstock, já ocupando uma posição de destaque internacional na cena do rock e sendo chamada de “rainha do rock”, algo que continuava a surpreender sua mãe.
Após cerca de 57 anos da icônica apresentação da artista, Janis Joplin será homenageada em uma exposição inédita no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. A exposição reúne mais de 300 objetos, entre figurinos, acessórios, manuscritos, os óculos característicos da cantora, a estola de penas e outros itens originais que nunca haviam sido mostrados ao público, mantidos até então pela família.
O responsável por trazer ao Brasil os objetos pessoais de Janis, Chris Flannery, explicou que a exposição foi viabilizada após ele conhecer o administrador do espólio da artista. Flannery, que três anos antes havia organizado a exposição de B.B. King no MIS, recebeu do administrador uma lista de peças e fotografias pertencentes ao acervo da cantora.
“Esta será a maior exposição de Janis já realizada em qualquer lugar do mundo.”
Entre os itens que poderão ser vistos pelo público estão roupas e desenhos feitos por Janis Joplin. Conforme destacou Flannery em entrevista, os escritos e desenhos revelam uma faceta pouco conhecida da artista, demonstrando sua ligação também com as artes visuais.
Os ingressos para a exposição têm o valor de 30 reais (meia-entrada) e 60 reais (inteira). Nas terças-feiras, exceto em feriados, a visitação é gratuita.
A iniciativa marca a terceira vez em que o MIS dedica uma mostra a grandes vozes femininas do rock. Antes de Janis Joplin, o museu já havia realizado homenagens à carreira de Rita Lee e de Tina Turner.
André Sturm, diretor-geral do MIS e curador da mostra, observou que o período final dos anos 1960 e início dos anos 1970, marcado pela contracultura, rock e liberação sexual, remete imediatamente à música de Janis Joplin. Ele ressaltou que a exposição foi estruturada para proporcionar ao visitante uma experiência sensorial, com cenografia imersiva e psicodélica organizada em dez salas expositivas. Cada sala expressa sentimentos ou conceitos conectados à personalidade e à trajetória da cantora.
“Quando ela canta, ela se entrega completamente, e ela teve uma vida muito intensa em todos os sentidos. Se o que mais marca a Janis é a emoção, vou fazer uma exposição e dividi-la pelas emoções muito presentes na vida dela.”
Uma das salas, denominada Amor Brasil, destaca a passagem de Janis pelo território brasileiro durante o carnaval no Rio de Janeiro em 1970. O espaço reúne materiais dessa visita, como fotografias, vídeos e até um trecho de carta enviada por Janis à mãe enquanto estava no país. O diretor do museu enfatizou que a artista demonstrou grande felicidade durante esse período no Brasil.
Janis Joplin, conhecida por sua voz marcante, rouca e de grande potência, nasceu em Port Arthur, Texas, no ano de 1943. Durante a adolescência, sofreu forte influência de nomes como Leadbelly, Bessie Smith e Big Mama Thornton, cuja autenticidade a motivou a seguir carreira musical.
Ela se envolveu com a música folk e pintura ainda no ensino médio, ao lado de amigos. Posteriormente, ingressou por curto período em faculdades de Beaumont e Austin, mas sentiu-se mais atraída pelos músicos do blues e pela poesia beat do que pela vida acadêmica. Em 1963, abandonou os estudos e mudou-se para São Francisco, estabelecendo-se no bairro de Haight-Ashbury, conhecido pela cena artística e pelo uso de drogas.
Na Califórnia, Janis conheceu o guitarrista Jorma Kaukonen, futuro integrante da banda Jefferson Airplane. Juntos, gravaram canções acompanhados pela esposa de Kaukonen, Margareta, que utilizava uma máquina de escrever como instrumento.
Não muito tempo depois, a cantora retornou ao Texas e cursou sociologia na Universidade Lamar, mas voltou para a Califórnia em 1966, dando início a uma carreira musical que se estendeu por pouco mais de quatro anos.
Janis Joplin foi descoberta pelo grupo Big Brother and the Holding Company, importante representante do rock psicodélico de São Francisco, graças à sua voz intensa e melancólica. Com a banda, gravou dois discos considerados antológicos: Big Brother and the Holding Company (1967) e Cheap Thrills (1968).
Após deixar o grupo, a cantora lançou dois álbuns solo: I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama (1969) e Pearl (1971), este último lançado postumamente.
Janis Joplin faleceu em 4 de outubro de 1970, aos 27 anos, em razão de uma overdose de heroína, poucos dias depois da morte de Jimi Hendrix, outro ícone musical da época.